quinta-feira, 28 de outubro de 2010

mostra - dia 7


Ex Isto, de Cao Guimarães

novamente, acabei perdendo um dia de mostra por motivos pessoais que nem sequer merecem ser relatados aqui - acreditem, se eu começasse a dizer, acabaria virando um livro, e um livro extremamente amargurado, revoltado e capaz de esculhambar um sem número de pessoas com palvrões, xingamentos e até mesmo socos de boxeadores pulando para fora da tela do computador. algum dia, talvez, eu coloque tudo isso no papel e publique, mas não será por meio deste blog.

dito isso, a boa notícia: esse provavelmente foi o último dia perdido de mostra. temos sete ininterruptos pela frente pra destruir o que sobra das capacidades soníferas e alimentícias deste corpo.

o sétimo dia oficial no calendário da mostra - quinto, portanto, com a minha presença - começou com ex isto, de cao guimarães, uma encenação absolutamente experimental sobre como teria sido uma visita de rené descartes ao brasil. é uma obra bastante conflitante em alguns aspectos e que acaba sendo sua principal inimiga, usando aqui este clichê dos esportes. impressionante esteticamente - um filme com longos planos do ator joão miguel, interpretando decartes, em diversas situações nos trópicos e da natureza e outros, sempre com narrações filosóficas ao fundo.

algumas imagens realmente são incrivelmente boas, ficando aqui o destaque pra um super close de uma aranha construindo uma teia. infelizmente, esse combo perfeição técnica de planos longos de praticamente nada (pelo menos por meia hora não existe outro ator em cena) + voz over com constatações filosóficas caminha de forma inevitável pra um sonífero infalível. quando o filme começa a surtar e inserir imagens e situações deslocadas dessa realidade toda, criando uma nova perspectiva e deixando de lado um suposto pedantismo, já é tarde demais. de qualquer forma, ex isto é, no mínimo, passível de interesse.

no mínimo passível de interesse também pode ser considerado o caso das divisões morituri, de fj ossang, o alvo da retrospectiva da mostra nesse ano. eu tenho uma pequena tendência a gostar de filmes malucos e pouco ortodoxos, e esse é completamente um deles. ossang, que desejou boa sorte à platéia antes do início da projeção, cria um universo à parte no qual gladiadores se matam em arenas e a polícia tenta impedir as apostas nesse jogo, indo atrás tanto dos lutadores como dos apostadores. a partir daí, se desenvolve uma ficção que foge de clichês e lugares comuns e se comporta de maneira absolutamente anômala, explorando várias das possibilidades imagéticas que o cinema oferece - desde variações nos tons de cor, enquadramentos e transições até as formas mais simples, como subtítulos que não deixam de piscar e se repetir na tela.

difícil partir de um filme como esse para algo tão quadrado e repetitivo como i wish i knew, de jia zhang-ke. eu provavelmente estarei dizendo algo que já disse antes, mas essa é uma frase metalinguistica: se algum dia eu encontrar zhang-ke na rua, vou pedir por favor, tenha caridade conosco e pare de SEMPRE FAZER A PORRA DO MESMO FILME. se você já viu qualquer um dos documentários desse cineasta sobre a china moderna, já viu este também. as pessoas vão rememorar suas infâncias e adolescências e as estórias de suas famílias na época da revolução sendo gravadas em lugares ermos, com cores frias e sem nenhuma interação com o público, a equipe ou qualquer outra coisa. uma vez, passa. mas é o trigésimo quinto filme igual de zhang-ke.

(aliás, observação pertinente feita hoje na fila enquanto aguardávamos pelo coutinho - zhang-ke tomou o lugar do amos gitai como cineasta mais repetitivo da atualidade. podíamos fazer um bolão sobre daqui a quantos filmes ele vai sair do rolê documentários sobre a china moderna, que tal?)

então, o misterioso e desconhecido um dia na vida, de eduardo coutinho. o filme sobre o qual ninguém sabia nada. o filme que, antes de ser iniciado, gerou devolução do ingresso pra todo mundo na fila - e porra, valeu mostra, mas vocês me deram dois ingressos de graça em vez de um - amamos quando esses erros acontecem! resumindo:

coutinho gravou 24 horas de todas as emissoras de televisão aberta brasileiras e fez uma colagem de uma hora e meia com tudo que existe de pior nelas. márcia, datena, casos de família, etc etc etc. é isso. começa com teleaulas de inglês, termina com venda de jóias na madrugada. obviamente, sem esquecer dos programas religiosos.

eu não quero entrar na discussão se isso é um filme ou não. não sei. não gosto de conceitos fechados e corretos, são coisas que pra mim não existem. se, com uma arma na minha cabeça, tivesse que escolher, eu diria que não - e é por isso que me abstenho de dar nota, apesar de ter achado uma experiência deveras interessante e ter gargalhado bastante com todas as bizarrices exibidas.

vale lembrar que provavelmente esse filme nunca mais será exibido, em lugar nenhum. questão de direitos autorais, vocês devem saber. por isso também foi mantido em segredo até o início da projeção.

(ex isto - 2.5/4, o caso das divisões morituri - 2.5/4, i wish i knew - 2/4, um dia na vida - s/n)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

mostra 2010 - dias 4 e 5


Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

senhores leitores, vejam o tamanho da minha tragédia:

decidi que sacrificaria o terceiro dia da mostra devido à minha paixão pelos esportes. no caso, naquele domingo, meus dois times do coração entrariam em campo para enfrentar seus arqui-rivais: o palmeiras jogaria contra o corinthians, o oakland raiders contra o denver broncos. um jogo às dezesseis horas pela televisão, o outro às dezoito pela internet. tudo devidamente encaminhado. até que, ao acordar, me deparo com uma grande surpresa: nada funciona.

a espera pela volta dos serviços prestados pela excelentíssima net durou o dia inteiro, sem nenhum sucesso. tive que ouvir pelo rádio o palmeiras ser derrotado por 1 a 0 e ver pelo play by play da internet do celular os raiders massacrarem os broncos por 59 a 14. e sem mostra. e sem filmes. e sem nada.

feito este amargurado relato, vamos ao que importa:

de volta à correria na segunda-feira, iniciamos com lost paradise in tokyo, drama bastante correto sobre dois irmãos e uma garota que se envolve com ambos tentando criar um mundo próprio dentro da capital japonesa. um dos irmãos é autista e tem um episódio bastante doloroso no passado, o que faz com o que o outro, a princípio, o mantenha constantemente trancado dentro do apartamento enquanto trabalha. aos poucos, uma compreensão maior cai entre a trupe e vemos aquelas mensagens que vocês já sabem quais são.

vou citar um ponto negativo específico que me irritou bastante e me impediu de gostar mais dessa obra de kazuya shiraiashi: o filme é de um maniqueísmo quase vontrieriano, existindo os três personagens em comunhão a partir de um certo momento lutando pelo bem e pela paz em suas vidas e encontrando no resto do mundo perversão e maldade. chega a ser praticamente desastroso o tratamento dado às pessoas externas aos três a partir de aproximadamente uma hora de filme. apesar disso, é uma obra sólida e bem construída, tanto temática como esteticamente. houvesse um pouco mais de tato da direção nesses momentos decisivos e o resultado poderia ter sido bem satisfatório.

momento de indignação, parte 1:

um homem abre um sex-shop. piadas com pintos. piadas com vibradores. piadas com bonecas infláveis. rejeição da sociedade. conflito. piadas com casais de velhos e pessoas mau-humoradas agora felizes. mais piadas com pintos. piadas com impotências. ah, o personagem principal é gordinho e desajeitado e tem um affair com uma delicinha completa.

que filme é esse? não, não é american pie 23, é revolução da luz vermelha, idiotice completa. que porra isso tá fazendo na mostra, sr. cakoff?

fim do momento de indignação, parte 1. sigamos. esse filme foi selecionado pelo programa petrobras cultural 2003. esses letreiros aparecem antes de bróder, de jefferson de. e eu que achava que meu média tinha demorado demais pra ficar pronto.

bróder, porém, é um filme muitíssimo bem construído, mesmo sendo mais um exemplar do rolê já clássico do cinema brasileiro galera da periferia. sempre lembro, nessas horas, do extinto turma do gueto da record e seu glorioso refrão de abertura, e aí malandraaagem. genial. voltemos ao que importa.

apesar de estar o tempo todo flertando com o crime e a tragédia, bróder se desenvolve como uma história - como o nome já sugere - sobre família e amizade. o filme mantém um ritmo constante e bastante acelerado, seus atores principais seguram a onda da dramaticidade toda - principalmente um caio blat versão mano sensacional - e tudo acaba sendo bem amarradinho e desenvolvido. não chega a ser uma obra-prima, nem um cidade de deus - e provavelmente a pretensão nem passa perto disso - mas o que importa é que ele tanto entretem como possui várias qualidades bastante louváveis. além, claro, do troféu diálogo da mostra até aqui:

- não é brother que fala, é mano, mano.

eu estou aqui enrolando pra falar sobre cópia fiel, do abbas kiarostami, talvez porque simplesmente eu não saiba o que falar sobre ele. me causou um efeito de embasbacamento gigante ao seu término, tanto com toda sua elegância - esse iraniano sabe onde por a câmera como ninguém, ou como poucos, como também quanto movimentá-la ou não, o que fazer com ela em cada situação. toda a sequência inicial, plano estático da mesa de entrevista enquanto vemos os créditos já é incrível e dá o tom do que virá a seguir - como por seu tratamento com o roteiro, com os personagens, com o desenvolvimento. aliás, a palavra elegância cabe pra essas instâncias também de forma brilhante.

dito isso, lembro da juliette binoche ao receber o prêmio de melhor atriz em cannes, agradecendo muito ao kiarostami pelo papel. o carinho do cineasta com os personagens é impressionante e transparente em cada cena. não quero interpretar nada, não quero dizer o que eu acho das "surpresas" durante a projeção. de verdade, não me importa. acho que não deveria importar a ninguém. fiquem com as impressões que quiserem, eu fico com as minhas.

um pobre cineasta francês, benoit magne, aparece numa sala de cinema em são paulo, numa terça-feira à tarde, e diz que aquela é a primeira exibição de seu filme NO MUNDO TODO. e eu ali, perdido. esse filme era o inesperado. simpático, barato, me identifico com esses sonhadores de vinte e poucos anos contando estórias sobre jovens tentando achar seus lugares no mundo - e estórias sem dinheiro nenhum para serem contadas. o problema é que essa aventura do sr. magne até ia bem, não como uma obra-prima, mas como um filme simpático e divertido até que a excelentíssima senhora personagem principal surta e começa a agir de forma totalmente diferente. pra um filme com foco TOTAL no seu objeto de retrato - no caso, essa garota - ter falhas tão gritantes de construção de personagem é um negócio quase destruidor.

momento de indignação, parte 2:

um adolescente sentado numa cama tem uma lista com nomes de garotas, a maioria já riscados. ele liga pra próxima, que atende, a princípio não se lembra dele e depois diz que terminou com o namorado. ela o convida pra ir à eslováquia. ele aceita. eles vão. após alguns dias lá, começa a pintar um clima. ela tenta beijá-lo, ele se recusa. foge. brigam. ela pega um cara num bar e ele fica puto com isso (?). ele faz um escândalo (???). ele vai a um bar, pega uma garota e, quando ela se oferece pra um boquete, ele fica transtornado e foge (?????).

puta que pariu, sra. ingrid veninger, diretora deste modra, se sua intenção era fazer o romance adolescente com os dois personagens mais irritantes, imbecis, mimados e tapados da história, você conseguiu, parabéns.

fim do momento de indignação, parte 2. terminemos.

para encerrar minhas escritas no dia da trágica notícia da morte do polvo paul, digo que cheguei hoje à conclusão que minhas aulas de russo tem sido completamente inúteis. isso porque entendi só uma meia-dúzia de palavras ditas em minha perestroika, documentário sobre os efeitos da abertura política russa na vida de alguns habitantes do país da vodka. é interessante e bem feito, mas me senti assistindo ao history channel. dispensável, a não ser por uma aula de laboratório de luxo.

(lost paradise in tokyo - 2/4, revolução da luz vermelha - 0/4, cópia fiel - 3.5/4, bróder - 2.5/4, o inesperado - 1/4, modra - 0/4, minha perestroika - 2/4).

sábado, 23 de outubro de 2010

mostra 2010 - dia 2


A Espada e a Rosa, de João Nicolau

existe uma doce ilusão que anda com você todos os anos na hora de montar sua grade pra mostra: esse ano, vou ser mais inteligente e deixar espaços de pelo menos uns 40 minutos pelo menos uma vez por dia, assim, posso me alimentar! pura e dolorosa ilusão. aos poucos, você percebe que é impossível. quando por um milagre do acaso você realmente consegue deixar esse espaço, vai ser atingido por qualquer tipo de outro imprevisto: restaurantes demorados, filas intermináveis, bares lotados. é como se uma força oculta do mundo te OBRIGASSE a almoçar ou jantar diariamente dentro das salas ou dos ônibus ou correndo pela augusta.

pior que isso, quando você insiste em almoçar decentemente sacrificando, com isso, quinze ou vinte minutos do próximo filme - o que obviamente é um erro imenso - será inevitável ter que sentar no chão ao lado da primeira fileira no filme seguinte. com o resto da cerveja na mão. com objetos estranhos tapando um pedaço da tela. e assim, segue eternamente a vida de mostra.

ano passado, um dos meus filmes preferidos na mostra foi still walking, fábula familiar lindamente dirigida por hirokazu kore-eda. o japonês, responsável também por ninguém pode saber, depois da vida, entre outras preciosidades, aparece agora com air doll. e a decepção não tinha como ser maior.

sendo direto ao ponto, o que me assusta nesse conto sobre uma boneca inflável que de repente ganha vida e sentimentos é a simploriedade como tudo é tratado. são metáforas óbvias e rasas em diálogos ainda mais óbvios e rasos. eu sou vazia por dentro, diz a personagem principal, ao que ouve a resposta todos nós somos. uau, parabéns, kore-eda!

a narrativa se desenvolve com a boneca aos poucos descobrindo o que é uma vida como humana, a convivência e as pequenas regras dessa sociedade. obviamente, ela estranha tudo e passa por situações bastante embaraçosas. a maioria dessas situações parece retirada de alguma comédia adolescente hollywoodiana com o mesmo tema. não parece nada com uma obra do mesmo homem que tinha feito filmes tão complexos como são seus três já citados nesse post, sobretudo depois da vida, no qual a discussão filosófica e metafórica alcança níveis extremos sem abandonar a beleza em momento algum.

se vocês pesquisarem ainda meu texto sobre still walking no ano passado, vão ver meu comentário sobre o fato de ser usada câmera estática em 98% do tempo. aqui, essa característica é abandonada, também por questões de linguagem que claramente se difere nas duas obras. porém, até mesmo na estética essa acaba sendo uma aparição preguiçosa da carreira de kore-eda.

agora, falemos de surrealismo.

o diretor português joão nicolau, presente na sala pra apresentar seu longa a espada e a rosa, disse em seu discurso pré-exibição algo como defendo um cinema livre, como a vida. livre de qualquer regra. e dedico esse filme aos mestres surrealistas que salvaram minha vida.

paixão, amigos. de novo ela aparece por aqui. mas antes, eu tinha visto o italiano-sardo a graça, de bonifacio angius, outro com elementos pendendo extremamente para o surrealismo. só que nada tem nenhuma condição de gerar nenhum tipo de interesse. personagens andam por estradas, figuras bizarras aparecem, desaparecem, reaparecem. a fotografia é escura, os atores são ruins. aos poucos, você se pergunta o que está fazendo naquela sala. e nada vai conseguir te responder. ah, o surrealismo.

então, o segundo exemplar, o já citado filme português. na primeira cena, o personagem principal já conquistou toda a platéia. em seguida, uma apresentação de sua vida, de seu mundo, uma aproximação. depois, uma imersão em um mundo de sonho, delírio e fantasia. se o cinema é a arte dos sonhos, como diz muita gente, a espada e a rosa é perfeito em toda sua concepção - faz sonhar. faz sentir. faz ter vontade de estar ali com aquelas figuras estranhas vivendo em um mundo aparentemente tão absurdo.

a única questão que impede a espada e a rosa de ser uma pequena jóia do nível de aquele querido mês de agosto, outra revelação portuguesa que a mostra nos deu uns dois anos atrás, é que sua duração de 142 minutos não sustenta todo o sonho e, a partir de um certo momento, o filme passa a se arrastar miseravelmente. o terceiro setor, por assim dizer, inteiro dele não possui metade do interesse e do carisma dos dois primeiros. mas é um fato que joão nicolau colocou seu nome na lista dos cineastas a se observar daqui em diante.

(air doll - 1/4, a graça - w/o, a espada e a rosa - 3/4).

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

mostra 2010 - dia 1

Turnê, de Mathieu Amalric

primeiro fato é que o meu post sobre o dia 1 de 2009 começa com algo parecido com queria dizer que não teve nenhum problema técnico no dia de abertura da mostra. e dessa vez, 2010, realmente não fui afetado por nenhum. acredito que seja impossível que não tenha acontecido nada, sobretudo no cinesesc ou no frei caneca, os reis dos atrasos, das panes de projeção, das falhas com legendas e todo o resto, mas, passando o dia todo no reserva cultural, as coisas correram perfeitamente.

segundo fato é que a mostra eternamente começa pra mim com um filme aleatório escolhido de olhos fechados pra tapar buraco, já que raramente tem coisas famosas na tarde do primeiro dia e o boca-a-boca ainda não foi gerado pra maiores recomendações. parece ser meio que uma perseguição constante o fato de eu sempre cair em filmes espanhóis nesse momento, deve ser a quarta vez ou algo do tipo. dessa vez, foi retornos, do debutante luis aviles. um filme raso e rápido, que passa batido em todos os seus aspectos e sobre o qual praticamente não existe o que se dizer. reconciliação de um pai que deixou sua família pra trás há 10 anos depois de um episódio trágico e é odiado por todos com mistérios e investigações policiais de pano de fundo. não é nenhuma bomba, mas não deixa marcas. nem pra bem, nem pra mal.

então partimos para a expectativa: poesia, de lee chang dong, vencedor do prêmio de melhor roteiro em cannes.

quem me conhece ou conhece o que eu costumo gostar ou não em cinema deve saber: eu tenho um ódio mortal por personagens idiotas. mais ainda por diretores que tratam seus personagens como retardados mentais. na minha errônea concepção cinematográfica, o personagem vem acima de tudo, até mesmo da estética. se a cada ação dele eu quiser me esconder de vergonha alheia, é quase impossível que eu goste do filme.

nos primeiros dez minutos de poesia, eu já tinha pensado internamente puta que pariu, mas que mulher mala umas treze vezes. isso pra não falar no seu neto. esse, nem merece comentários. mas tudo bem, isso não faz o filme ruim. e não é realmente um filme ruim.

a questão é que toda essa tradição do cinema oriental de mostrar a bondade das pessoas está oculta aqui, mascarada por alguns acontecimentos que parecem levar pra um caminho um pouco sórdido. além disso, a busca pela poesia em cada aspecto da vida contrasta com o dilema da citada senhora mala - o que é intencional, mas gerou um resultado bastante negativo. fiquei lembrando por muito tempo da força dramática enorme do mother, jóia coreana vista na mostra passada. por mais que sejam estilos tão diferentes, não comparar acaba sendo difícil.

gosto muito dos dez minutos que encerram o filme, onde realmente a conjunção poesia + lado sórdido funciona e existem algumas sacadas excepcionais por parte do premiado roteiro. mas acaba sendo pouco perto de uma obra eternamente arrastada e com personagens muito incapazes de segurar o interesse - justamente o contrário do que acontece em turnê, de mathieu amalric.

é muito provável que esse filme - que está longe de ser uma obra-prima ou coisa do tipo - tenha me tocado bastante pela proximidade do seu personagem principal comigo. o cidadão, um irresponsável semi-alcóolatra com todos os vícios do mundo mas com um coração enorme, é o produtor de uma companhia que atravessa a frança exibindo shows burlescos em teatros decadentes. em duas instâncias, a obra lembra demais o cinema de john cassavetes, obviamente com as devidas proporções guardadas - primeiro, nessa figura central, um quase robert harmon, segundo, na impressão que tudo está sendo constantemente improvisado.

o que também faz esse pequeno simpático filme crescer e até mesmo levar um prêmio de direção em cannes é que ele transborda paixão. paixão não só pelo fazer cinematográfico, mas por cada uma das suas crias, seja o produtor, seja pelas dançarinas, seja pelas figuras encontradas no caminho. nesse aspecto, me veio na memória outro belo filme da mostra 2009, o uruguaio mau dia para pescar. são retratos de sub-mundos e de outsiders visto com carinho por seus criadores. mais que fundamental.

(retornos - 1.5/4, poesia - 1.5/4, turnê - 3/4)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

inception

coloquei no twitter uma frase que me pareceu bastante adequada sobre inception: um grande nada cheio de tudo.

e a ironia toda é justamente eu começar esse post mencionando o twitter, rede social que teoricamente pede que você seja preciso, rápido, coeso no que for dizer. nenhuma enrolação, direto ao ponto, 140 caracteres. a impressão que eu tenho é que o christopher nolan nunca conseguiria ter um twitter - e este filme é uma confusão de raciocínios interminável. os assuntos se misturam, as sub-tramas se bagunçam, os dramas internos são esquecidos e depois relembrados com uma facilidade incrível.

não estou dizendo que um filme não pode ter sub-tramas, ser complexo, ter raciocínios longos, ser prolixo - sei que essa expressão parece deslocada aqui, mas me pareceu que cabia usá-la - afinal, meu cineasta preferido é jean-luc godard, praticamente o maior mestre do prolixes cinematográfico. mas a questão central é que nolan não consegue, ou talvez nem mesmo tenta, confeccionar esse ideário todo.

inception gera interesse em muitas formas, mas não se aprofunda em nenhuma. tem ali um personagem atormentado por culpa e pela memória, e em muitos momentos parece ser um filme sobre memória. tem mundos paralelos, discussões de sonhos, fantasia, efeitos especiais sensacionais. tem muitas sub-tramas, muitos caminhos a percorrer, muitos diálogos sobre todas as características mencionadas nesse parágrafo. infelizmente, tudo é um oceano de dispersão.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

sobre extremos

toy story 3 (lee unkrich, 2010)
a serbian film (srdjan spasojevic, 2010)

pode parecer estranho, mas eu não vi o primeiro toy story na época de seu lançamento. tinha sete anos de idade e desprezava desenhos. achava que eles eram pra crianças bobas e limitadas. ao mesmo tempo, levava comigo uma incrível frustração por não poder entrar no cinema e assistir aos filmes que realmente me agradavam - os de terror. eu, uma singela criança, mas com a mente já completamente pervertida por jason, michael myers e afins. brinquedo na tela, só se fosse o chucky.

acabei vendo de uma vez "toy story" e "toy story 2" ali pra 2003 ou 2004, auge da minha cinefilia, tempo que aprendi que todos os tipos de filmes podiam ser bons ou ruins, e que ser uma animação não impedia em nada que tivéssemos ali uma obra-prima. lembro que achei dois filmes divertidíssimos, mas deixei nesse ponto. nenhum tinha mexido muito comigo, causado grandes emoções ou qualquer coisa do tipo. tinha dado muitas gargalhadas, mas meu pensamento era simplesmente que eram boas peças de entretenimento.

engraçado notar que sete anos depois desse primeiro olhar e quinze do lançamento que a série realmente acabou causando um impacto grande em mim, quando eu já levava vinte e dois anos vividos e diversos tipos de experiências. a palavra central aqui é nostalgia. toy story 3 é um filme nostálgico, não para quem adorava os dois primeiros filmes, mas para quem era criança naquela época, gostando de filmes de terror ou o que fosse.

é uma saga sobre personagens incrivelmente carismáticos, principalmente woody e buzz, mas com todos os coadjuvantes merecendo destaques de nível também - não há um brinquedo dessa trupe principal que não desperte extrema compaixão ou simpatia. a partir daí, criada essa relação de proximidade entre personagens e público, a identificação geral pode alcançar níveis diferentes de profundidade. e eu acho que é onde o filme tem seu mérito principal - a transferência da relação andy-brinquedos para a relação espectador-brinquedos. essas antigas crianças, hoje já adultos, que um dia se importaram com aqueles pequenos objetos com os quais se divertiam e um dia acabaram se desfazendo deles de infinitas formas diferentes ou, quem sabe, ainda os mantém guardados em algum cômodo escuro e abandonado de suas casas.

a construção de pessoas passa diretamente pelas emoções, e relações com os brinquedos estão em algum lugar no início disso tudo. se aos sete anos eu preferia os filmes de terror por não enxergar em andy nada além que uma criança da minha idade que brincava da mesma forma que eu - vejam, identificação superficial, não emocional - hoje, isso muda radicalmente e me aproxima muito mais desse conto sobre brinquedos vivos que na idade que deveria ter acontecido.

essa análise acaba sendo completamente pessoal, uma vez que eu não preciso entrar em méritos de qualidade de animação, roteiro, competência extrema na transição de gêneros e tudo o mais. primeiro, porque todo mundo já falou disso. segundo, porque o que realmente me importa em toy story 3 é essa forma com a qual ele realmente me pegou.

na mão contrária, nós temos essa demonstração bizarra de sadismo e ultra-violência que é a serbian film, um snuff-movie que abusa do sangue espirrando para todos os lados e na tortura pesada - sobretudo sexual - para... para nada. é desses casos de choque fácil, obra que não analisa nada, não traz nenhuma inovação, nenhum conteúdo ou nenhuma estética que mereça destaque, mas que simplesmente se apóia numa tentativa de causar repulsa - ou prazer, nunca se sabe - para uma conquista de público.

é dentro desse extremo que vemos um tipo de filme incapaz de dizer qualquer coisa ou causar qualquer emoção, empatia pelos personagens, uma relação além do oi, eu sou o filme, te mostrei um cara comendo o cu do filho de cinco anos e o sangue espirrando e você escondeu a cara e achou isso repulsivo. obrigado. eu não consigo ver isso como cinema ou como qualquer coisa digna de nota.

toda a maturidade demonstrada por toy story 3 desaparece em a serbian film. não existe sensação de medo, normalmente o principal fator dos filmes de terror, a narrativa é pobre e se desmonta antes que possa causar maior impacto. a força é das imagens. mas não por sua beleza, sua construção ou sua estética, mas pelo seu choque. um desperdício de uma experiência que poderia ser absolutamente visceral.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

the hurt locker














filmes de guerra tem algumas vertentes para seguir. alguns exploram o lado psicológico dos combatentes e a completa degradação mental durante o período de conflito (full metal jacket, kubrick), alguns focalizam quase o tempo todo na ferocidade da batalha, com a intensidade e a ação sendo predominantes (resgate do soldado ryan, spielberg), alguns se contentam em fazer retratos e trazerem mensagens pessimistas e pacifistas sobre tudo aquilo (gloria feita de sangue, kubrick again) e alguns simplesmente mostram cruamente o quanto a guerra é uma completa idiotice desumana (vá e veja, klimov), apesar de quase todos se encaixarem nessa última categoria, mas sem a mesma ênfase. a não ser, claro, que estejamos falando dos filmes do ridley scott.

the hurt locker é tudo isso.

primeiro, é um filme de constante tensão, com três ou quatro cenas memoráveis nesse aspecto, com um destaque especial pra uma certa mosca. o perigo e a eminência da morte são duas características tão óbvias que o público é levado a prender a respiração e se envolver em cada segundo da ação.

segundo, é um filme de construção e destruição psicológica ímpares. os personagens estão em constante mudança, totalmente influenciados pelo meio no qual se encontram - a guerra, a morte. alguns se tornam mais estúpidos e descerebrados com isso. outros, depressivos. sair de lá é uma necessidade. voltar, talvez também seja.

terceiro, é um filme com ritmo, com direção acuradíssima, com atuações sensacionais, sobretudo de jeremy renner, o desarmador de bombas. bigelow, diretora que eu tinha visto um filme até então, o medíocre k-19, surpreende bizarramente com talento e pleno controle de sua obra. tudo está absolutamente no lugar.

são cinco ou seis cenas completamente memoráveis. destaco especificamente a mais sutil delas, uma envolvendo um supermercado, que dá um incrível nó na garganta.

temos aqui uma jóia tanto em visual como em conteúdo. james cameron podia ter se divorciado alguns anos depois e aprendido que cinema precisa dos dois lados.